Um blog sobre as bases filosóficas do veganismo

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

É possível defender os direitos animais com base no cristianismo? A reinterpretação do Gênesis do filósofo Tom Regan (Respondendo objeções #5)



Ao longo da história, o cristianismo foi de grande influência no modo como as sociedades ocidentais conceberam a relação dos seres humanos com os animais não humanos e o valor das vidas destes. A sentença bíblica “Deus nos deu o domínio” é ainda hoje utilizada por alguns como objeção àqueles que defendem o veganismo e os direitos animais. Um modo de responder a essa objeção, é alegar que doutrinas religiosas não podem determinar os direitos dos indivíduos em sociedades laicas. Mas será que também é possível dar uma resposta cristã a essa objeção? Se for, ela certamente terá mais chances de convencer pessoas religiosas. A fim de dar uma resposta afirmativa para a questão, o filósofo Tom Regan (1938 - 2017) forneceu uma reinterpretação do Gênesis, compartilhada abaixo.

POR TOM REGAN

"Bem, pelo menos Deus nos deu o domínio!"

Pessoas com inclinações religiosas, especialmente os cristãos que levam a Bíblia a sério, normalmente concordam que os direitos não são a moeda moral de sua ética baseada na fé. Você simplesmente não encontra direitos morais na Bíblia. O que você encontra, sem ambigüidade, é que Deus nos deu o domínio sobre os outros animais, dito celebremente com as seguintes palavras:

E Deus disse: "Façamos o homem à nossa imagem e à nossa
semelhança: e vamos deixá-lo ter domínio sobre os peixes do
mar e sobre as aves do céu, e sobre o gado e sobre toda a Terra,
e sobre todas as coisas rastejantes que nela vivem." Então Deus
criou o homem à sua imagem, à imagem de Deus Ele o criou;
macho e fêmea, Ele os criou. E Deus os abençoou, e Deus lhes
disse: "Sejam férteis e se multipliquem, e povoem a terra e a
subjuguem: e tenham domínio sobre os peixes do mar e sobre as
aves do céu, e sobre todas as coisas vivas que se movimentam
na Terra". (Gênesis 1:26-28, versão do rei James).

O que poderia estar mais claro do que a idéia de que os outros animais foram criados para o nosso uso? O que poderia estar mais claro do que a idéia de que não fazemos nada de errado ao limitar sua liberdade, ferir seus corpos ou tirar suas vidas para atender às nossas necessidades e saciar nossos desejos?

Não é assim que eu leio a Bíblia. Ser contemplado por Deus com o domínio sobre tudo não significa receber uma carta branca para atender às nossas necessidades ou saciar nossos desejos. Pelo contrário, significa ser íncumbido da imensa responsabilidade de ser o representante do criador na criação; em outras palavras, nós fomos chamados por Deus para sermos tão cheios de amor e de zelo por aquilo que Deus criou quanto o próprio Deus foi cheio de amor e zelo ao criar tudo. De fato, conforme meu modo de entender a idéia, é isso o que significa ser "criado à imagem de Deus".

Eu mesmo não sei como alguém pode ler o relato inicial da criação no Gênesis (ele pode ser levado a sério sem ser tomado no sentido literal) e acabar entendendo de forma diferente os planos e a esperança de Deus para a criação. Deus, você deve lembrar, criou os outros animais no mesmo dia (o sexto) que Adão e Eva. Nessa representação da ordem da criação, eu vejo um reconhecimento antecipado do parentesco vital que os humanos têm com outros animais. Além disso, nessa saga inicial eu encontro uma mensagem mais profunda. Deus não criou os animais para o nosso uso - não para nosso entretenimento, nossa curiosidade científica, nosso esporte, nem mesmo para nossa alimentação. Ao contrário, os animais não-humanos atualmente explorados dessas maneiras foram criados para ser justamente o que eles são: expressões independentemente bondosas do amor divino que, de uma forma que provavelmente continuará sendo misteriosa para nós, se mostrou na atividade criadora de Deus.

"Nem mesmo para nossa alimentação?", posso ouvir o resmungão cético perguntar. "Será que isso é um erro de impressão?" Minha resposta é: "Não, não é um erro de impressão. É o que a Bíblia ensina". A "carne" que recebemos de Deus para nosso alimento não é a carne dos animais. Eis o que ela é: "E Deus disse Vejam, eu lhes dei todas as ervas com sementes sobre a terra, e todas as árvores, nas quais estão os frutos com sementes; para vocês, isso será a carne"' (Gênesis 1:29). A mensagem não podia ser mais clara. Não há caçadores no Éden, mas só coletores. No mais perfeito estado da criação, os seres humanos são veganos; não comemos carne de animais nem qualquer produto de origem animal, como leite ou ovos. Portanto, se perguntarmos o que Deus esperava de nós "no início", em se tratando de comida a resposta não está aberta a discussões: Ele não esperava Big Macs nem omeletes de queijo.

Para os cristãos, a pergunta feita a cada dia é simples: "Será que estou tentando dar uma virada na minha vida para começar a minha jornada de volta ao Éden - de volta a uma relação mais amorosa com essa dádiva da criação? Ou eu continuo a viver de maneira a aumentar a minha distância daquilo que Deus esperava?" Esta pergunta é respondida de várias maneiras, não só uma. Sobre isso, não há o que argumentar. Tampouco devemos discutir se as escolhas que os cristãos fazem quanto à comida no seu prato é uma das maneiras de responder a essa pergunta. Os animais do Jardim do Éden viviam no paraíso precisamente porque ninguém violava seus direitos - e é isso o que, na minha opinião, os cristãos deveriam querer para os animais, hoje.

"Defensor cristão dos direitos animais" não é um oximoro. É verdade que é o amor, e não os direitos, o que está no cerne da ética cristã. Ainda assim, "Defensor cristão dos direitos animais" é urna forma adequada de expressar um ativismo baseado na fé, que trabalha pelos mesmos objetivos que os defensores dos direitos animais: jaulas vazias, não jaulas mais espaçosas. O mesmo vale para o defensor judeu dos direitos animais, defensor muçulmano dos direitos animais, defensor hindu dos direitos animais, defensor budista dos direitos animais, e assim por diante. Se fizermos um retrato familiar dos defensores dos direitos animais, ele incluirá pessoas de todos os credos. Elas têm tudo a ver, ali. O fato de muita gente de fora da comunidade dos defensores dos direitos animais achar difícil acreditar que crentes possam ser defensores dos direitos animais só vem a mostrar quão bem-sucedidas são as grandes indústrias de exploração animal em criar e manter uma imagem errada de nós.

SAIBA MAIS
O texto acima foi retirado do livro Jaulas Vazias, do filósofo Tom Regan (1938 - 2017). O livro completo pode ser acessado em nossa biblioteca virtual.
Para o/a leitor(a) interessado(a) em saber mais sobre a teoria filosófica do autor, veja nosso texto Direitos para animais não humanos? A argumentação do filósofo Tom Regan.
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quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

A filosofia e o veganismo: uma resposta a Luiz Felipe Pondé


O filósofo brasileiro Luiz Felipe Pondé, figura razoavelmente conhecida na internet e que atualmente é professor na PUC/SP e FAAP, já comentou sobre o veganismo em mais de uma ocasião. Com algumas delas sendo em seu próprio canal no YouTube, Pondé invariavelmente dá a entender que o veganismo consistiria em um movimento cuja base filosófica seria fraca e que não passaria de “simples moda”. O propósito principal deste blog é provar justamente o contrário: que o movimento vegano pelos direitos animais está baseado na mais sóbria das filosofias e tem a seu favor os mais sólidos argumentos. Assim, cabe apresentar respostas aos comentários feitos por Pondé. O que há de errado com eles? Por que Pondé está errado? O presente texto se atenta para essas questões. Visando responder de forma clara e direta, reproduzimos literalmente trechos de seus vídeos e respondemos um de cada vez.

PONDÉ: “Eu acho muito iludido, do ponto de vista filosófico da coisa, é a ideia de que você pode simplesmente se retirar da cadeia de violência da natureza. A própria natureza é uma cadeia de violência. Ela é a primeira a ser violenta. Assim como ela cria, ela destrói.”*
Neste comentário, Pondé parte de uma constatação factual verdadeira: a natureza é por si só violenta. Mas o que poderia resultar dessa constatação? Pondé alega que aqueles que aderem ao veganismo querem simplesmente se isolarem dessa violência e que, não sendo isso possível, o veganismo seria uma filosofia de vida iludida. Há pelo menos dois problemas aqui. O primeiro é que Pondé recorre à falácia do espantalho (que consiste em distorcer o argumento ou tese de alguém para que assim se possa atacá-lo mais facilmente). Pondé cita (de modo bastante problemático, como veremos a seguir) Peter Singer como exemplo de filósofo da causa animal. Se tivesse lido o filósofo e a obra citada em seu vídeo com mais atenção (Libertação animal), Pondé teria lido na p. 338: “O objetivo da alteração de nossos hábitos de consumo não é nos manter intocados pelo mal, mas reduzir o apoio econômico à exploração dos animais e convencer outros a fazer o mesmo”. Ou, se Pondé tivesse estudado com respeito o tema antes de formular suas críticas, teria se deparado com Tom Regan, outro filósofo importantíssimo da causa animal, e então teria lido esse defensor do veganismo afirmar: “os defensores dos direitos animais não têm razão para se considerar perfeitos exemplos de virtude, como se o mundo fosse dividido entre Puros (esses seríamos nós) e Impuros (esses seriam o resto da humanidade). [...] A certeza exagerada da própria virtude não é uma condição prévia, nem uma conseqüência necessária, da defesa dos direitos animais” (Jaulas vazias, p. 234).


O segundo problema de seu comentário, é que para que o fato de que a natureza é violenta funcione como uma crítica ao veganismo, ela tem de estar baseada em um dos dois raciocínios seguintes. Primeiro, pode ser a sugestão de que uma vez que a natureza é em si mesma violenta, seria certo para nós reproduzir essa violência. Mas isso seria recorrer à falácia naturalista (que consiste em alegar que porque algo é natural é moralmente bom) e o próprio Pondé admite não concordar com ela em uma entrevista em outro vídeo[1]. Ora, é claro que a natureza é violenta, mas isso nada diz sobre o modo como nós, seres morais, devemos nos comportar. A segunda opção é que a crítica de Pondé tenha por base a suposição de que, se não é possível nos abster completamente de qualquer violência, então não precisamos fazer nada para diminuir ou acabar com a violência que nós próprios geramos. Mas... alguém realmente pensa assim? Se não podemos acabar com toda a violência, podemos simplesmente reproduzir qualquer violência? É claro que não. Essa é justamente a razão (idealmente) pela qual criamos instituições que visam coibir a violência.

PONDÉ: “Tem aí um filósofo chamado Peter Singer, que é assim uma espécie de guru, apesar de muitos veganos nem saberem disso. Publicou em 1975 um livro chamado Animal Liberation, onde ele cunha um conceito que é “especismo” em que ele diz que a gente se alimentar de animais e prender animais é uma forma de racismo transespécie, daí especismo, no sentido em que acharíamos que os animais são inferiores. O fato é que o que eles tentam é aproximar o veganismo de uma forma de canibalismo e que portanto você comer proteína animal, comer animais e fazer outros usos de animais seria uma forma de crime. É claro que você torturar animais e sofrimento é uma coisa dolorosa. O que eu critico no veganismo é uma certa percepção sensorial e estética infantil da realidade associada a uma expectativa purista e moralista. E eu não gosto de purismo e moralismo.”*


Aqui Pondé deixa claro o quão pouco sabe sobre veganismo e a produção filosófica sobre a exploração animal em geral. O seu “tem aí um filósofo” e “espécie de guru” sugere que Peter Singer seria o único ou o primeiro filósofo a abordar esse tema. Isso está muito longe de ser verdade! Embora Singer tenha enorme influência nessa área, as reflexões filosóficas sobre a morte de animais para consumo humano é pelo menos tão antigas quanto Plutarco (46 d.C. - 119 d.C.) que escreveu, já na Grécia Antiga, o ensaio De esu carnium (Sobre comer carne). Muitos outros exploraram o tema na história da Filosofia e, hoje, as discussões sobre a moralidade e a exploração animal constituem um ramo consolidado da Ética Aplicada, a Ética Interespécie, com muitos filósofos e filósofas discutindo a temática, alguns dos quais já apresentamos aqui no blog. Pondé ainda diz que Singer teria cunhado o termo especismo, o que também não é verdade. Embora Singer tenha sido o principal responsável pela popularização do termo, quem o cunhou foi o psicólogo Richard D. Ryder. 


As expressões “racismo transespécie” e “forma de canibalismo” são utilizadas por Pondé indevidamente (para não dizer de forma desonesta), numa tentativa de reduzir ao absurdo a posição que está sendo discutida. O que defensores dos direitos animais sustentam é que o especismo é uma forma de opressão e discriminação contra os animais não humanos. Essa discriminação consiste, basicamente, em não darmos a devida consideração aos interesses dos animais não humanos, de modo a permitir, por exemplo, que na indústria de cosméticos os interesses triviais humanos em desenvolver novos produtos se sobreponha aos interesses mais importantes de animais não humanos, como os de não sofrer ou padecer; ou que, nas touradas, o interesse humano no entretenimento se sobreponha aos interesses do animal que sofre e morre na arena. O mesmo ocorre na produção de alimentos de origem animal. Exceto no caso de pessoas que realmente não têm acesso a outros alimentos, o consumo de carne e derivados não tem outras razões além do prazer do paladar, comodidade, tradição; isto é, interesses triviais humanos. Por outro lado, os interesses mais essenciais dos animais são infringidos. Por isso, o especismo é moralmente errado e uma forma de discriminação a ser combatida. Pondé, porém, não responde porque o especismo não seria errado ou não existiria, se limitando a taxar toda a argumentação filosófica de “purista e moralista” para finalizar com um “eu não gosto de purismo e moralismo”. Ou seja, uma atitude patética de criticar sem rebater argumentos, com simples taxações - nada condizente com a atividade filosófica. Perceba: se assim for, podemos taxar qualquer pessoa que defenda os direitos de um determinado grupo e o fim de uma determinada opressão de “purista e moralista” e, a fim de evitar refletir sobre a opressão em questão, tranquilizar a nós mesmos justificando nossas práticas com um “eu não gosto de purismo e moralismo”.

PONDÉ: “A minha crítica ao veganismo é o puritanismo que ele carrega dentro dele. Não é a mera opção alimentar, óbvio que não. É o puritanismo, a ideia de você não fazer parte de nenhum ciclo de violência na natureza. A natureza é um ser extremamente violento e cruel. Agora, criticar o puritanismo vegano não significa ser a favor de tortura animal, mas, ao mesmo tempo, é a própria natureza que come a si mesma. E na medida em que a natureza come a si mesma, por que que a gente que faz parte da natureza e precisa, inclusive, de proteína animal, não pode comer?”*


Neste comentário, Pondé resume alguns pontos já abordados e acrescenta uma informação falsa. Seja por ignorância sobre o tema ou por uma mentira deliberada, Pondé afirma que precisamos de proteína animal. Isso não é verdade. Nós precisamos, sim, de proteína; mas não há nenhuma necessidade de que ela venha de animais. Importantes documentos de organizações de saúde reconhecidas atestam isso. Por exemplo, o Guia alimentar de 2019 organizado pelo Ministério da Saúde do Brasil afirma que “o consumo de carnes ou de outros alimentos de origem animal” não é “imprescindível para uma alimentação saudável”[2]. Outro importante documento da Associação Norte-Americana Dietética diz: “as dietas vegetarianas adequadamente planejadas, incluindo as dietas totalmente vegetarianas ou veganas, são saudáveis, nutricionalmente adequadas e podem proporcionar benefícios para a saúde na prevenção e no tratamento de certas doenças. As dietas vegetarianas bem planejadas são apropriadas para todas as etapas do ciclo vital, incluindo a gravidez, a lactação, a infância e a adolescência, assim como para os atletas”[3]. No caso de atletas, o recente documentário “Dieta de gladiadores” (disponível Netflix) documenta a transição para o vegetarianismo-estrito/veganismo de dezenas de super atletas e recordistas mundiais de diversos esportes, incluindo levantamento de peso. Em suma: exceto no caso de pessoas que realmente não têm acesso a outros alimentos, nós não precisamos de alimentos de origem animal; dizer o contrário é anticientífico.


Agora, se alguns animais comem outros na natureza e nós fazemos parte da natureza, por que não podemos também? Essa objeção já foi abordada aqui no blog e o(a) leitor(a) pode clicar aqui para acessar a resposta completa. Mas dito de forma resumida: (i) ao contrário da maioria dos animais que se alimentam de outros, nós não precisamos disso, conforme exposto acima; (ii) nós somos, até onde sabemos, os únicos seres capazes de refletir moralmente sobre nossas ações, de modo a sermos moralmente responsáveis; (iii) a natureza não é um guia moral e usá-la como tal é recair na falácia naturalista supracitada.
Quanto ao puritanismo, isso já foi respondido na resposta ao primeiro comentário.

PONDÉ: “Porque você se alimenta de animais não significa, a priori, que você seja a favor de tortura animal”*
Por fim, um comentário de Pondé com o qual eu concordo. É verdade: se alimentar de animais não significa gostar ou ser a favor de tortura animal. Hoje, a maioria das pessoas reconhece que os animais não são simples máquinas; eles possuem alguma importância moral que faz com que seu sofrimento deva ser evitado. E isso é exatamente o que levou o cantor Paul McCartney a dizer que “se os abatedouros tivessem paredes de vidro, todos seríamos vegetarianos”. Gostamos disso ou não, a indústria de criação animal gera sofrimento e morte em uma escala gigantesca e difícil sequer de imaginar. Dezenas de bilhões de animais são anualmente mantidos em condições de confinamento, estresse causado pela superpopulação no local, marcações à ferro e debicagens sem anestesia, transportes sem alimentação e água etc, etc. Além, é claro, da morte ao final do processo - ou, no caso de pintinhos machos da indústria de ovos, no início do processo, já que eles são mortos pouco depois de nascerem. E é também por isso que aqueles que reconhecem que causar sofrimento desnecessário é moralmente errado, devem reconsiderar seus hábitos. Uma vez que, como vimos, exceto no caso de pessoas sem acesso a outros alimentos, os produtos da exploração animal não são necessários.

NOTAS:
[1] Entrevista de Pondé concedida a Alysson Augusto. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=T0GYyEYF5vw&list=WL&index=11&t=0s>
[2] Guia alimentar para a população brasileira (2019). Disponível em: <http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/guia_alimentar_populacao_brasileira_2ed_atualizada.pdf>
[3] Documento da Associação Norte-Americana Dietética. Disponível em: <https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/19562864>
Matéria do El País que cita o mesmo documento: <https://brasil.elpais.com/brasil/2016/02/09/estilo/1455014252_014459.html>


*Vídeos em que Pondé expõe seus comentários:


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sábado, 18 de janeiro de 2020

Como sabemos que as plantas não sofrem? Respondendo objeções #4

Texto do filósofo Peter Singer responde a questão: como sabemos que as plantas não sofrem?

Por Peter Singer


Alguém poderia perguntar: “Como sabemos que as plantas não sofrem?”
Essa objeção demonstra uma preocupação genuína com o mundo vegetal. Aqueles que a levantam, porém, não levam em conta seriamente a ampliação de nossa consideração [moral] para as plantas, caso se comprove que elas sofram. Ao contrário, esperam mostrar que, se tivéssemos de agir de acordo com o princípio que defendi [o princípio da igual consideração de interesses], precisaríamos parar de comer também os vegetais - e, portanto, morreríamos de fome. A conclusão a que chegam é que, se é impossível viver sem violar o princípio da igual consideração, não devemos nos preocupar com isso. Podemos continuar comendo plantas e animais.

A objeção é fraca, tanto factual quanto logicamente. Não há evidências confiáveis de que os vegetais sejam capazes de sentir prazer e dor. Alguns anos atrás, no livro A vida secreta das plantas, o autor afirmou que elas têm capacidades incríveis, inclusive a de ler a mente das pessoas. As experiências mais admiráveis citadas no livro não foram realizadas em institutos sérios, e as tentativas de pesquisadores das principais universidades, de repetir essas experiências, não chegaram a resultados positivos. As alegações da obra foram completamente desacreditadas.

No primeiro capítulo deste livro [Libertação animal] apresentei três razões distintas para mostrar que os animais sentem dor: o comportamento, a natureza de seu sistema nervoso e a utilidade evolucionária da dor. Nenhumas delas sustenta a crença de que as plantas experimentam o sofrimento. Não há descobertas experimentais cientificamente plausíveis - nenhum comportamento observável que sugira dor, nem a presença, nelas, de algo que se pareça com um sistema nervoso. É difícil imaginar um motivo pelo qual espécies que não conseguem se afastar de uma fonte de padecimento, ou de usar a percepção da dor para evitar a morte, tenham desenvolvido a capacidade de sofrer. Portanto, a crença de que as plantas sentem dor parece completamente injustificada.

Meu argumento, até aqui, referiu-se à parte factual dessa objeção. Vejamos, agora, sua lógica. Suponhamos que, por mais improvável que pareça, os pesquisadores consigam encontrar indícios de que as plantas sofrem. Dessa premissa não se segue que os carnívoros devem manter sua dieta habitual. Se precisássemos escolher entre infligir dor ou passar fome, teríamos de optar pelo mal menor. Considerando que as plantas padecem menos do que os animais, ingeri-las seria o “mal menor”. Mas vejamos a questão por outro lado. Digamos que as plantas sejam tão sensíveis como os animais. Nem assim o ponto de vista dos carnívoros teria lógica. Isso porque, ao ingerir carne, também são responsáveis, ainda que indiretamente, pela destruição de, no mínimo, dez vezes mais plantas do que os vegetarianos! A essa altura, admito, o argumento se torna ridículo. Eu só o desenvolvi para mostrar como aqueles que levantam essa objeção, sem considerar suas implicações, estão, na verdade, procurando um pretexto para continuar a comer carne.


SAIBA MAIS
O texto acima foi retirado da obra Libertação animal, do filósofo Peter Singer. O livro completo está disponível em nossa biblioteca virtual. Para acessá-la, clique aqui.
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sábado, 9 de novembro de 2019

O "argumento dos casos marginais", pela filósofa Julia Tanner


Animais não humanos possuem status moral? Em outras palavras, eles têm direitos morais de algum tipo? O “argumento dos casos marginais”, como foi mais frequentemente chamado na literatura filosófica, é um dos fortes argumentos que podem ser usados na defesa de uma resposta positiva para a questão. O argumento cria um sério problema para todos aqueles que pretendam defender que apenas seres humanos têm determinados direitos morais, sejam quais forem esses direitos. Mais do que isso, o argumento demonstra que qualquer tentativa de considerar os seres humanos como moralmente superiores tem de recorrer, no fim das contas, ao especismo, isto é, uma discriminação arbitrária baseada unicamente na espécie. Como, então, funciona esse argumento? O texto a seguir, de autoria da filósofa Julia Tanner, explica.

Por Julia Tanner


É de grande importância saber se os animais têm status moral. Se os animais têm status moral, talvez seja errado usá-los como atualmente fazemos - caçando, criando gado, comendo-os e fazendo experimentos com eles. O argumento dos casos marginais nos oferece uma razão para pensar que alguns animais têm status moral igual aos dos seres humanos “marginais”.
Muitos daqueles que negam que os animais têm status moral argumentam que o status moral depende de uma função racional ou da capacidade de usar a linguagem ou alguma outra capacidade/capacidades que apenas os seres humanos têm. Como há muitas dessas capacidades, usarei a capacidade X para representar todas elas.

Mas sujeitar o status moral a X (função racional ou qualquer outra capacidade que seja típica dos seres humanos adultos normais) é problemático. Nem todos os seres humanos têm X (nem todos os seres humanos são seres humanos adultos e normais). Há alguns seres humanos, conhecidos como seres humanos marginais, que não têm (ou não têm plenamente) X. Esses seres humanos são chamados de “casos marginais” porque são atípicos, uma vez que não têm a capacidade essencial X. De maneira geral, há três tipos de seres humanos marginais: pré-X (ainda têm que adquirir X, como as crianças); pós-X (perderam X devido a doenças, acidente ou velhice); e não X (não têm, nunca tiveram e nunca terão X).
Aqueles que argumentam que o status moral depende de X enfrentam, portanto, um dilema. Ou admitem que os seres humanos marginais carecem de status moral porque lhes falta X, ou devem reconhecer que o status moral depende de alguma outra coisa, e não de X (chamarei esta de “Z”). Mas alguns animais também têm Z. Assim, é preciso reconhecer que esses animais também (com Z) têm status moral. Este é o argumento dos casos marginais.

O argumento dos casos marginais tem raízes na antiga Grécia. Porfírio foi quem primeiro o formulou. Mas o termo “argumento dos casos marginais” foi cunhado em época mais recente por Narveson (um oponente do argumento). 
[...]
Assim, podemos formalizar o argumento do seguinte modo:


Premissa 1: Se não há diferenças moralmente relevantes entre seres humanos marginais e alguns animais não humanos, então, se os seres humanos marginais têm status moral, alguns animais não humanos também o têm.
Premissa 2: Não há nenhuma diferença moralmente relevante entre seres humanos marginais e alguns animais não humanos. 
Conclusão 1: Se os seres humanos marginais têm status moral, então alguns animais não humanos também o têm.
Premissa 3: Os seres humanos marginais têm status moral.
Conclusão 2: Alguns animais não humanos têm status moral.

SAIBA MAIS
O texto acima é de autoria da filósofa Julia Tanner, PhD em Filosofia pela Universidade de Durham, Reino Unido, e foi publicado como um capítulo do livro Os 100 argumentos mais importantes da Filosofia Ocidental.

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terça-feira, 29 de outubro de 2019

Mas... os animais não comem outros animais? Respondendo objeções #3



Seguindo nossa série de postagens dedicadas a apresentar respostas para objeções comuns ao veganismo, tratamos hoje daquela segundo a qual estamos legitimados a comer animais, pois outros animais também comem animais. Com isso se quer dizer que a morte para alimentação é algo natural, ou seja, que simplesmente "faz parte da natureza". Desse modo, dizem, não haveria nada de errado nessa prática. Será que esse é um bom argumento? Trecho do filósofo Peter Singer, retirado da obra Libertação animal, responde a essa objeção.

Por Peter Singer

A natureza dos não humanos serve de base para outras tentativas de justificar o tratamento que lhes conferimos. Afirma-se com frequência, como objeção ao vegetarianismo, que se outros animais matam para se alimentar, também podemos fazê-lo. Essa analogia já era antiga em 1785, quando William Paley a refutou, referindo-se ao fato de que, embora os seres humanos possam viver sem matar, outros animais não têm escolha se quiserem sobreviver. Isso é verdadeiro na maioria dos casos, mas é possível apontar algumas poucas exceções: animais que conseguem sobreviver sem carne, mas que a comem ocasionalmente (chimpanzés, por exemplo). Contudo, não são essas as espécies servidas habitualmente à mesa de jantar. O fato de que outros animais, que poderiam viver com uma dieta vegetariana, às vezes matem por comida não serve de apoio para a alegação de que é moralmente defensável que façamos o mesmo. É estranho como os seres humanos, que se consideram muito superiores a outros animais, recorram, quando se trata de legitimar suas preferências alimentares, a um argumento que implica olhar para os animais a fim de encontrar inspiração e orientação moral. A questão, claro, é que os não humanos são incapazes de avaliar as alternativas, ou de refletir moralmente sobre a correção ou a incorreção de matar para comer. Podemos lamentar que o mundo seja assim, mas não faz sentido responsabilizar ou culpar os animais por isso. Por outro lado, cada leitor deste [texto] é capaz de fazer uma escolha moral sobre esse assunto. Não podemos fugir da responsabilidade por nossas escolhas, imitando a ação de seres incapazes de fazer esse tipo de escolha. 
[...]
Talvez a alegação seja de outra ordem. Como vimos, lorde Chesterfield usou o fato de que os animais comem uns aos outros para argumentar que fazê-lo é parte da “ordem geral da natureza”. Ele só não indicou por que deveríamos imaginar que nossa natureza se parece mais com a do tigre carnívoro do que com a do gorila vegetariano, ou com a do praticamente vegetariano chimpanzé. Mas, à parte essa objeção, temos de nos precaver, na argumentação ética, contra apelos à “natureza”. A natureza pode, muito frequentemente, ser “sábia”, mas temos de usar o próprio juízo para decidir quando segui-la. Até onde sei, a guerra é “natural” entre os homens - certamente parece ter sido uma preocupação de muitas sociedades, em diferentes circunstâncias, durante um longo período histórico -, mas não tenho a intenção de fazer guerra para ter certeza de que ajo de acordo com a natureza. Temos a capacidade de raciocinar sobre o que é melhor fazer. Deveríamos colocar essa capacidade em prática (e, caso você goste de apelos à “natureza”, pode dizer que raciocinar nos é natural).


SAIBA MAIS
O texto acima é de autoria do filósofo Peter Singer e foi retirado de sua obra Libertação animal. Esta é uma obra filosófica que denuncia o especismo e defende a igual consideração moral para os animais não humanos. Ao leitor ou leitora interessada, o livro pode ser acessado na versão pdf em nossa biblioteca virtual. Para isso, clique aqui.
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sábado, 28 de setembro de 2019

Não deveríamos resolver os problemas humanos primeiro? Respondendo objeções #2

Seguindo nossa série de postagens respondendo objeções comuns ao movimento vegano pelos direitos animais, tratamos hoje daquela segundo a qual os seres humanos vêm em primeiro lugar e que, assim, precisaríamos primeiro lidar com os problemas humanos antes de pensar nos problemas que envolvem os animais não humanos. Guerras, epidemias, sexismo, racismo, pobreza, fome, desigualdade social… diante desses e muitos outros graves problemas que afligem muitos seres humanos, será que não deveríamos primeiro resolvê-los todos para só depois pensar no sofrimento animal? O texto do filósofo Peter Singer, compartilhado abaixo, responde a essa objeção.

Por Peter Singer

Entre os fatores que dificultam o despertar da preocupação do público com relação aos animais, talvez o pior seja a afirmação de que “seres humanos vêm em primeiro lugar” - o que implica assumir que é impossível comparar qualquer problema relativo aos animais, como questão moral ou política séria, a um problema relativo aos seres humanos. Esse pensamento é, em si, uma indicação de especismo. Como pode alguém que não tenha feito um estudo profundo sobre o sofrimento animal saber que essa questão envolve problemas menos sérios do que os associados ao sofrimento humano? Pode-se alegar que os animais não importam e que, por mais que sofram, seu padecimento é menos importante do que o dos seres humanos. Mas dor é dor, e a importância de impedi-la não diminui porque ela não se refere a um membro de nossa espécie. O que pensaríamos de alguém que dissesse “brancos vêm primeiro” e que, portanto, a pobreza da África não é tão grave quanto a da Europa?

É verdade que muitos problemas no mundo merecem nosso tempo e energia. A fome e a miséria, o racismo, as guerras e a ameaça de aniquilação nuclear, o sexismo, o desemprego, a preservação de nosso frágil meio ambiente - todas essas são questões graves e é difícil dizer qual é a mais importante. No entanto, quando nos libertamos do especismo, percebemos que a opressão de não humanos por humanos acontece pari passu [no mesmo passo] a esses problemas. O sofrimento que infligimos é grande e os números envolvidos são gigantescos: mais de 100 milhões de porcos, bovinos e ovelhas passam, todos os anos, pelos processos descritos no capítulo 3, somente nos Estados Unidos; o mesmo acontece com bilhões de galinhas; e ao menos 25 milhões de animais são submetidos a experimentação anualmente. Se mil seres humanos fossem forçados a passar pelos testes que levam os não humanos ao padecimento, para averiguar, por exemplo, a toxicidade de produtos de limpeza doméstica, haveria um clamor nacional. O uso de milhões de animais para esse fim deveria, no mínimo, causar reação semelhante, sobretudo porque esse sofrimento é desnecessário e poderia ser evitado se assim o quiséssemos. A maioria das pessoas sensatas deseja o fim das guerras, da desigualdade racial, da pobreza e do desemprego; o problema é que estamos tentando impedir essas coisas há anos e agora temos de admitir que, em grande medida, não sabemos como fazê-lo. A redução do sofrimento dos animais seria relativamente fácil, desde que os seres humanos se decidissem a isso.

A ideia de que “seres humanos vêm em primeiro lugar” é usada mais como um pretexto para não fazer nada em relação a animais humanos e não humanos do que como uma genuína opção entre alternativas incompatíveis. A verdade é que não há incompatibilidade alguma nesse caso. É certo que todos temos um limite de tempo e energia, e o período que dedicamos ao trabalho ativo por uma causa reduz o tempo disponível para outra. Mas nada impede aqueles que devotam seu tempo e energia a problemas humanos de aderir ao boicote a produtos ligados à crueldade do agronegócio. Ser vegetariano não toma mais tempo do que comer carne. Como vimos no capítulo 4, os que alegam preocupação com o bem-estar dos seres humanos e com a preservação do meio ambiente deveriam tornar-se vegetarianos simplesmente por esse motivo. Estariam, assim, aumentando a quantidade de grãos disponíveis para alimentar pessoas em todas as partes, reduzindo a poluição, economizando água, energia e deixando de contribuir para a derrubada das florestas. Além disso, como uma dieta vegetariana é menos dispendiosa do que a baseada em pratos preparados com carne, teriam mais dinheiro para gastar com o alívio da fome, o controle populacional ou qualquer outra causa social ou política que acreditassem urgente. Não questiono a sinceridade dos vegetarianos que têm pouco interesse pelo movimento pela libertação animal porque dão prioridade a outras causas. Mas, quando não vegetarianos afirmam que os “problemas humanos vêm em primeiro lugar”, não posso deixar de me perguntar o que é, exatamente, que estão fazendo pelos seres humanos que os compele a continuar apoiando a exploração perdulária e cruel dos animais de criação.

SAIBA MAIS
O texto acima é um trecho do capítulo 6 da obra Libertação animal, de autoria do filósofo Peter Singer. Ao leitor ou leitora interessada, essa importante obra está disponível em nossa biblioteca virtual e pode ser acessada clicando aqui.

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Este blog visa contribuir para a divulgação não acadêmica de conteúdos filosóficos relevantes em prol do movimento vegano pelos direitos animais.

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